Edição Atual
Apresentação
Criatividade e Inteligência Artificial: sobrevôos e explorações
Liliane Ramos
Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Porto, Portugal), , vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão em Criatividade, Educação e Arte (GPECEAr, Ufes). E-mail: lilianemoreiraramos@gmail.com.
Felipe Zamana
PhD em Psicologia pela Université Paris Cité (Paris V - Sorbonne), mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Porto, Portugal), e-mail: mail@felipezamana.com.
Os últimos três séculos têm sido marcados por profundas transformações nos modos de vida das sociedades modernas, impulsionadas, entre outros fatores, pelas transformações tecnológicas. Embora a evolução tecnológica seja, no senso comum, associada à noção de “progresso”, esta trajetória é historicamente dividida entre visões otimistas e pessimistas de seus efeitos. Nos últimos cinquenta anos, por exemplo, testemunhou-se este debate em torno do crescimento e da popularização de tecnologias como a internet, redes sociais, e smartphones.
Por um lado, influentes discussões desenvolveram-se a partir de seu potencial para a promoção de novas formas de sociabilidade, autoexpressão, construção de subjetividades, produção e democratização da informação e colaboração (por exemplo, em Sociedade em Rede, de Manuel Castells, e trabalhos subsequentes e nas sucessivas categorizações da internet como 1, 2, 3, 4 e 5.0, sob a lógica produtivista e mercadológica). Por outro lado, o mesmo contexto sociotécnico é objeto de abordagens críticas que exploram o tipo de laços construídos por essas mesmas interações tecnológicas, com ênfase em sua fragilidade, os impactos na saúde física e mental a partir do uso excessivo de tecnologia por diferentes faixas etárias, e a tecnologia como ferramenta de vigilância, controle e perpetuação de desigualdades, o que representa uma ameaça à privacidade dos indivíduos e à democracia (como em Zuboff, 2019).
A chamada Inteligência Artificial Generativa, como por exemplo a Midjourney e DALL-E, tem protagonizado os debates mais recentes neste campo. A interação entre humanos e máquinas já era imaginada na antiguidade grega, na Idade média e no período do renascimento, com diferentes pensadores projetando hipotéticas máquinas lógicas, capazes de “pensar” mecanicamente utilizando sistemas simbólicos. O evento inaugural do campo da inteligência artificial é atribuído ao matemático inglês Alan Turing, que concebeu, em 1949, o chamado “Turing test”, em que pretendia investigar se o comportamento das máquinas poderia ser indistinguível do comportamento humano, experimento conhecido como “jogo da imitação” (Perc, 2025). Na sequência, o termo foi formalmente cunhado em uma conferência na Faculdade de Dartmouth, em 1956, que reuniu um grupo de matemáticos, estatísticos, engenheiros, filósofos e psicólogos interessados no tema.
Tratamos aqui a Inteligência Artificial como o aparato sociotécnico que permite criar soluções, conteúdos e informações novas a partir de informações armazenadas em grandes bases de dados, com a utilização de diferentes técnicas como redes neurais artificiais generativas e Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), entre os quais o mais conhecido é o GPT (Generative Pre-trained Transformer) (Hessel, 2023). Mais uma vez, visões utópicas e distópicas orientam os esforços teóricos e empíricos para compreender a natureza do fenômeno e seus impactos na sociedade. Com aplicações em diversas áreas, passando pela criação artística em diferentes linguagens, pelo entretenimento, pela educação, pela produção científica e pelas soluções industriais, entre tantas outras soluções práticas cotidianas, a IA generativa têm sido valorizada pela capacidade de reduzir custos, tempo de execução e ampliar a escalabilidade de tarefas (Perc, 2025). Há, entretanto, dado o crescimento exponencial de seu impacto, inúmeras questões relevantes em aberto, em múltiplas direções, relacionadas a aspectos filosóficos, éticos, legais e técnicos. As diferentes aplicações da IA Generativa tem diretamente influenciado processos criativos, com alteração significativa nas formas de produção simbólica e cultural, tornando este debate incontornável para os estudos da criatividade.
Este dossiê é fruto dos esforços empenhados pela Associação Brasileira de Criatividade e Inovação - CRIABRASILIS, para a promoção da reflexão crítica sobre as implicações epistemológicas, estéticas e éticas dessa convergência. Especificamente, deriva de uma série de conversas intitulada “Circuitos Criativos - entre bits e a criação” (A série “Circuitos Criativos: entre bits e a criação” está disponível integralmente no canal da CRIABRASILIS no Youtube, https://www.youtube.com/@criabrasilis/streams), promovida entre agosto e dezembro de 2025 como um espaço interdisciplinar de debate e investigação, reunindo pesquisadores, artistas e profissionais de diferentes áreas para explorar os múltiplos cruzamentos entre tecnologias emergentes e criação.
Algumas questões-chave balizaram as reflexões: como repensar os conceitos de autoria, originalidade e agência à luz das tecnologias generativas? De que maneira a IA impacta as práticas artísticas, científicas e educacionais? Quais metodologias e abordagens críticas podem nos auxiliar a compreender esse novo ecossistema cognitivo? Mais do que buscar respostas definitivas, o objetivo foi tensionar paradigmas e ampliar o repertório teórico e metodológico em torno do tema. O presente dossiê surge, então, por considerarmos frutífero registrar aspectos importantes deste debate e expandir a possibilidade de contribuição.
Estamos ainda distantes de qualquer possibilidade de consenso teórico-metodológico sobre a relação entre IA e a criatividade, o que representa certamente um desafio complexo e interdisciplinar. Por isso, propomos aqui sobrevôos sobre possibilidades de articulações teóricas, que apontam, principalmente, para uma crescente e fértil agenda de pesquisa, e, ao mesmo tempo, espaço para o compartilhamento de incursões exploratórias sobre a aplicabilidade prática da IA em diferentes campos do conhecimento, considerando a relevância da práxis em um estágio de contornos ainda por serem delineados.
Materialidade, tecnologias digitais e criatividade
A partir da abordagem Sociocultural, a criatividade surge da interação entre as pessoas e o mundo. Estas interações são, em geral, mediadas por artefatos, que podem ser ideias, conceitos, teorias, histórias, objetos físicos, espaços, plataformas e outras entidades humanas e não humanas (Glăveanu, 2020; Hanchett Hanson, 2024; Zamana, 2021). Nesta abordagem, a criatividade toma forma a partir particularmente da interação com os artefatos materiais, em um processo de co-evolução. Os objetos materiais, neste caso, não são considerados neutros: são, bem ao contrário, “culturalmente impregnados” (Glaveanu, 2017; Lubart et al., 2019), portadores de sentidos simbólicos ancorados em contextos culturais específicos.
Os aparatos tecnológicos são, naturalmente, atores materiais, dotados de significados, parte integrante dos processos criativos. A Inteligência Artificial, ao “impregnar-se” em ações industriais, mercadológicas, artísticas, educacionais e em toda sorte de ações usuais, “se une ao vasto conjunto de objetos técnicos que atuam, interferem e organizam a coletividade de humanos e não-humanos” (Nunes e Silveira, 2024). Analisados sob uma perspectiva antropológica pós-humanista, os objetos não apenas reproduzem cultura, mas, a partir de sua circulação, criam a própria cultura e “fazem sociedades”; portanto, as transformações operadas nas formas de interação com os objetos alteram a própria cultura (Miller, 2013).
De fato, a partir da teoria ator-rede, desenvolvida, entre outros, pelo antropólogo francês Bruno Latour, “se, por um lado o instrumento é alterado graças a uma necessidade humana, por outro, o homem que o empunha também é modificado pelas características do instrumento” (Latour, 2012). Esta visão vai além de apenas reconhecer os atores materiais como portadores de simbolismos, portanto, culturalmente ancorados: reconhece neles uma agência, uma capacidade de modificar a realidade a partir da relação com outros actantes humanos e não humanos, em uma rede de entrelaçamentos constantemente atualizada. Se pode se relevar desafiador reconhecer as dimensões dessa agência em um objeto como uma garrafa ou uma cadeira (embora elas estejam presentes neles), na IA generativa elas se mostram mais evidentes, uma vez que os sistemas são “treinados” e “aprendem” com as interações com os humanos (Nunes e Silveira, 2024).
Contudo, esta ênfase na agência dos artefatos tecnológicos ainda é importante porque, embora em campos como o das artes, a técnica (inclusive a digital) seja vista, há muitas décadas, como mediadores de processos criativos, capazes de interferir nos resultados das experiências do processo e da audiência, em outros ainda é frequente que seja tratada como um intermediário, uma ferramenta, como um meio para um fim. A perspectiva de Latour, entretanto, nos incita ainda a ir além: conhecida também como “sociologia das associações”, nos convida a buscar compreender o processo criativo que envolve a Inteligência Artificial em sua complexidade, a partir da “perseguição dos rastros associativos” entre humanos e não humanos que o constituem, identificando quais são os agenciamentos significativos antecessores e sucessores do momento de criação, e de que forma eles impactam os resultados produzidos, explorando diferentes aspectos das relações políticas, econômicas e sociais ali imbricadas.
Torna-se também, a partir das sugestões da teoria ator-rede, imprescindível, “compreender as máquinas e humanos de forma relacional, sem tomar um ator, ou outro, como o centro fixo e estanque de um processo” (Nunes e Silveira, 2014). Esta é uma provocação epistemológica que nos convida a refletir, desde as bases, sobre nossas definições de criatividade como competência humana e sobre os sujeitos dos processos criativos.
Notadamente nos últimos vinte e cinco anos, esforços teóricos em diferentes direções têm tentado dar conta da associação entre criatividade e as tecnologias digitais, especialmente a IA. Em uma recente análise bibliográfica das produções realizadas entre 2002 e 2022, Samper-Marquez e Oropesa Ruiz (2025) identificam o emergente campo dos estudos sobre a “criatividade digital”, conceito que segue sendo objeto de desenvolvimentos e controvérsias. Os autores definem este campo, de forma ampla, como as “formas de criatividade direcionadas por tecnologias digitais, cujo estudo é crucial para que se entenda como estas tecnologias estão alterando a forma como as pessoas criam e se comunicam”, mas destacam a diversidade e a riqueza das abordagens identificadas.
De forma geral, Samper-Marquez e Oropesa Ruiz (2025) indicam que o conceito de criatividade digital é situado num contexto social ou cultural, reconhecendo a influência do ambiente sobre como a criatividade é gerada e avaliada; aborda a criatividade como o resultado da interação entre tecnologias e a capacidade humana; e considera-a inerentemente um processo colaborativo e participativo. O papel da IA no aprimoramento da criatividade humana e na geração autônoma de obras criativas é apontado pelos autores como um dos campos de interesse crescente de investigação.
Neste recorte específico, Margaret Boden é uma influência frequente a partir de sua obra “The Creative Mind” (1990), recentemente atualizada, em que já refletia sobre a interação criativa entre humanos e modelos computacionais, estabelecendo critérios iniciais para avaliação da criatividade das máquinas (novidade, surpresa, valor) e de suas formas criativas de expressão (combinatorial, exploratória, transformacional). Posteriormente, a autora inclusive propôs o conceito de “artificial creativity”, em uma análise sobre como a inteligência artificial pode mimetizar e estimular a criatividade humana (Boden, 1998). Autores como Runco (2023) têm utilizado o termo “artificial creativity” em uma abordagem crítica, de forma a demarcar as diferenças significativas entre o processo criativo humano e das máquinas e a apropriação com fins prioritariamente lucrativos de uma ideia de “inteligência artificial criativa” por parte das empresas de tecnologia, caracterizando a criatividade das IAs como “pseudo-criatividade”.
Mais recentemente, modelos teóricos sistêmicos, como o de Mihaly Csikszentmihalyi, têm sido utilizados como base para a compreensão da associação entre criatividade e tecnologias digitais como um processo imerso em forças culturais, e abordagens fenomenológicas tem sido apropriadas para produzir enquadramentos que enfatizam a experiência humana e a interação com a tecnologia (Brown et al., 2021). Uma proposição conceitual que tem ganhado relevância entre pesquisadores da criatividade na perspectiva culturalista é a da “cibercriatividade”, definida por Corazza (2025), de forma ampla, como “todas as formas de interação entre humanos e inteligência artificial”.
Não é nosso intuito aqui apresentar uma descrição detalhada do campo conceitual de associações entre criatividade e tecnologias digitais, particularmente a inteligência artificial, o que requereria esforços que extrapolam os objetivos desta apresentação. É importante, ainda assim, apontar esta seara como um espaço de debates crescente e em aberto, que convida à reflexão, e esperamos, à articulação conjunta de pesquisadores e profissionais de diferentes domínios disciplinares, uma vez que as aplicações criativas da inteligência artificial perpassam campos tão diversos quanto a criação artística, a educação, a produção industrial e o desenvolvimento técnico computacional. Nesta conversa em ebulição, muitas inquietações teóricas e metodológicas persistem. Nos trabalhos apresentados neste dossiê, buscamos, principalmente, trazê-las à tona, especular possibilidades de desenvolvimento e compartilhar percursos iniciais.
Os sobrevôos e as explorações
Buscamos, neste dossiê, estimular contribuições de diferentes formatos, que pudessem contribuir para a exploração do tema Criatividade e Inteligência Artificial a partir de óticas diversas. Fazendo jus à origem na série de diálogos Circuitos Criativos, apresentamos alguns dos debates ali iniciados, seja em forma de conferência, de entrevista ou de ensaio teórico. Também estimulamos a partilha de experiências exploratórias, que registrassem movimentos iniciais em torno da articulação da inteligência artificial com diferentes campos disciplinares. Os trabalhos aqui apresentados compõem dois grandes blocos. No primeiro, dois artigos tratam dos desafios teóricos apresentados pela articulação entre criatividade e inteligência artificial, e, no segundo, seis trabalhos apresentam incursões exploratórias sobre aplicabilidades da inteligência artificial nos processos criativos em educação, artes e design.
Nas discussões teóricas, os dois textos apresentados contribuem para conectar os paradigmas históricos do estudo da criatividade com os novos conceitos elaborados a partir da interação com a Inteligência Artificial. Na conferência “O trajeto de modelos teóricos e abordagens da criatividade”, Asdrúbal Borges Formiga Sobrinho retoma as abordagens conceituais da criatividade, sua historicidade, seus deslocamentos epistemológicos e os desafios de reelaborar essas teorias diante de um cenário em que a inteligência artificial já não é mais apenas uma ferramenta, mas agente de transformação cognitiva. Esta discussão foi originalmente apresentada no quarto episódio da série Circuitos Criativos: entre bits e a criação, promovida pela Criabrasilis, em 2025 e mediada pela Profª Drª Stela Maris Sanmartin, atual presidente da CRIABRASILIS.
Na sequência, Felipe Zamana apresenta a tradução de parte do trabalho coletivo “Cyber-Creativity: A Decalogue of Research Challenges”. Coordenado por Giovanni Corazza e articulado com pesquisadores contemporâneos do campo da criatividade, o artigo se debruça sobre o que consideram “um desafio urgente e dramático para a humanidade: como podemos maximizar os benefícios da IA minimizando, ao mesmo tempo, os riscos associados?”. Na exploração desta questão, os autores apresentam o conceito de cibercriatividade como proposição para identificar as formas de colaboração humano–IA e propõem um decálogo de desafios de investigação, apontando para campos relevantes a serem explorados teórica e empiricamente: (1) o enquadramento teórico da cibercriatividade; (2) perspectivas socioculturais; (3) o processo cibercriativo; (4) o agente criativo; (5) a equipe cocriativa; (6) os produtos cibercriativos; (7) os domínios cibercriativos; (8) a educação em cibercriatividade; (9) os aspetos éticos; e (10) o lado obscuro da cibercriatividade.
O trabalho completo é de extensão incompatível com o presente dossiê, mas está disponível para acesso em formato open source. Acreditamos, ainda assim, ser relevante apresentar a síntese do decálogo como ponto de partida de iniciativas de investigação, com a ambição, segundo os próprios autores, de contribuir de forma significativa para a compreensão, o desenvolvimento e o alinhamento da IA com os valores humanos no domínio da criatividade.
No segundo bloco do dossiê, são apresentadas reflexões sobre o uso da IA e experimentos com aplicação de ferramentas de IA na educação, nas artes e no design. Os trabalhos têm como característica tensionar teoria e prática a partir da experimentação do potencial e das limitações do uso de diferentes aplicações de IA no processo criativo.
Três trabalhos abordam os atravessamentos entre criatividade e IA na educação, explorando a IA como tecnologia de impacto ontológico e cultural, capaz de reorganizar modos de aprender, perceber, criar e se relacionar. O primeiro deles é a entrevista “Uso da criatividade em inteligência artificial na educação”, conduzida por Luciano Tasso e Ana Rita Lustosa com a especialista em educação híbrida e tecnologias educacionais Mônica Nadja Caniçali. A entrevista foi originalmente realizada no primeiro episódio da série Circuitos Criativos: entre bits e a criação, promovida pela Criabrasilis, em 2025, e é apresentada neste dossiê de forma analítica. Os autores apresentam os principais eixos de discussão em torno do uso da Inteligência Artificial (IA) na Educação Básica, com ênfase nas relações entre criatividade, ética, percepção, formação docente e currículo, abordando questões como o papel da escola diante das transformações tecnológicas, a necessidade de políticas públicas e marcos regulatórios, os desafios da formação de professores, os cuidados com a infância, bem como as potencialidades da arte e da criatividade no uso crítico da IA.
Em seguida, dois artigos exploram a aplicação da IA em campos disciplinares específicos. Wescley Bezerra e colegas refletem sobre a “Geração de problemas via IA e o estímulo do pensamento crítico e criativo em matemática”, propondo prompts que possam contribuir para elaboração/reelaboração de problemas para o estímulo ao pensamento crítico e criativo em matemática, a partir da matriz de avaliação de materiais de pensamento crítico e criativo em matemática, com foco em alunos do ensino fundamental II. Os autores partem do experimento prático para discutir potencialidades e fragilidades deste tipo de aplicação.
Por fim, ainda no tema educação, Alline Dauroiz e Melissa Setúbal voltam-se para a formação específica em criatividade, com base no estudo de caso de uma disciplina de um curso de pós-graduação lato sensu. No artigo “A relevância do ensino da Inteligência Relacional na formação em Criatividade no advento da IA”, as autoras investigam a relevância do ensino da Inteligência Relacional na formação em Criatividade, examinando como a dimensão relacional pode fundamentar processos criativos mediados por IA. Elas propõem que formação criativa contemporânea demanda uma abordagem híbrida que priorize a criatividade consciente, centralize a dimensão relacional/emocional, desenvolva o pensamento crítico sobre a IA, mantenha a liderança do processo criativo sob responsabilidade humana e redefina competências para a era da cocriação humano-máquina.
Embora com foco em diferentes públicos, os trabalhos nos instigam a pensar criticamente em uma “relação equilibrada e humanamente significativa” (Dauroiz e Setúbal, neste número) com a IA na educação, em um campo que exige “posicionamentos conscientes sobre que tipo de humano, de educação e de sociedade se deseja construir em um mundo mediado por máquinas” (Lustosa e Tasso, neste número).
Dois trabalhos refletem sobre as intersecções entre arte e IA, na produção artística e na produção e disseminação de conhecimento, a partir dos debates realizados no segundo e no terceiro episódios da série Circuitos Criativos. Marcos Graminha, Ariel Moura e Stela Maris Sanmartin trazem o ensaio teórico “Inteligência, consciência e popularização do conhecimento: um diálogo entre Yuval Harari e Cienciarte”, em que analisam a visão de Harari sobre a IA como inteligência sem consciência e apresentam a Cienciarte como um contraponto para a re-humanização do saber, um caminho considerado por eles essencial para enfrentar os desafios do século XXI. A abordagem da Cienciarte, na explanação dos autores, busca justamente “integrar ciência e arte para promover não apenas a construção de conhecimento, mas também o desenvolvimento de consciência crítica e cultural”, uma forma de resistir à fragmentação do saber e ao risco de desumanização apontado por Harari.
Natacha de Souza, por sua vez, apresenta o artigo “Quando a máquina se engana: a ambiguidade criativa das ‘Alucinações’ em IA Generativa”, em que propõe investigar técnicas e explorar o potencial criativo e estético das Inteligências Artificiais Generativas nas dimensões do vídeo. Ela apresenta e problematiza as chamadas Hallucinations, uma resposta gerada pela IA que contém informações falsas ou enganosas apresentadas como fatos, analisando que estes erros podem ser vistos não como limitações, mas como oportunidades para novas experiências estéticas dentro das práticas da criação artística.
Finalizando o dossiê, Guilherme Parolin aborda o ciclo de vida dos produtos, pensando “Circularidades potencializadas: Inteligência Artificial como apoio ao Design Circular”. Partindo do conceito de Análise do Ciclo de Vida (ACV) de produtos e serviços, a partir de abordagens de Design Circular (DC), o autor aponta potenciais afinidades de sistemas de IA para oferecer suporte criativo desde a pré-produção até o descarte de produtos. Reflete, a partir destas abordagens, sobre como a integração entre IA e design circular “pode aprimorar significativamente a transição para modos de vida mais sustentáveis ao facilitar decisões, otimizar recursos, automatizar operações complexas e viabilizar novos modelos de negócio circulares”.
Em conjunto, os trabalhos reunidos neste dossiê delineiam um campo em constituição, marcado por tensões, deslocamentos e possibilidades ainda em aberto. Entre sobrevôos teóricos e explorações situadas, os textos articulam reflexão conceitual, experimentação prática e posicionamento crítico e convidam a revisitar concepções de autoria, agência, aprendizagem, ética e responsabilidade humana, tomando a IA como uma dimensão relacional com impacto significativo na vida, e, portanto, nas diferentes dimensões da criatividade.
Referências
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Artigos
BASES INDEXADAS

